O Verbo que Se Fez Carne 1.14
- Prof. Ms. Josiel Medeiros

- 20 de abr. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 23 de abr. de 2025
O Evangelho de João ocupa lugar singular no cânon neotestamentário, distinguindo‑se dos demais evangelhos sinóticos pelo seu caráter reflexivo e teológico. Tradicionalmente atribuído ao “discípulo amado”, João teria escrito seu relato por volta de 90–100 d.C., provavelmente na região da Ásia Menor, com o propósito de apresentar Jesus não apenas como Messias terreno, mas como Aquele que existia desde a eternidade junto do Pai. Logo no prólogo (Jo 1.1‑18), o autor expõe a identidade preexistente do Filho: o “Verbo” (grego logos) que estava com Deus e que, por meio d’Ele, todas as coisas foram feitas.

Quando João declara em 1.14 que “o Verbo se fez carne e habitou entre nós”, revela‑se o cerne da doutrina cristã da encarnação: o Filho eterno, que participou da criação do universo, assumiu a natureza humana sem deixar de ser verdadeiramente Deus. A expressão “se fez carne” indica kênōsis — o ato voluntário de esvaziamento (cf. Fl 2.6‑7) — pelo qual o Verbo não abriu mão de Sua divindade, mas assumiu as limitações da condição humana: fome, cansaço, dor e, finalmente, a morte. O propósito dessa união hipostática é revelar o caráter de Deus em gestos concretos de amor misericordioso, proporcionando aos homens a possibilidade de reconhecerem “a glória que o Filho traz, glória como do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” (Jo 1.14).
Do ponto de vista bíblico, a manifestação do Verbo encontra eco em diversas passagens: no Antigo Testamento, a “palavra de Deus” (hebraico davar) fala e cria (Gn 1), guia o povo (Dt 8.3) e concede vida (Sl 119); no Novo Testamento, o próprio Cristo se apresenta como “o pão da vida” (Jo 6.35), “a luz do mundo” (Jo 8.12) e “a ressurreição e a vida” (Jo 11.25). Cada uma dessas metáforas converge para o mesmo centro: Jesus é a comunicação máxima do ser de Deus, não uma abstração, mas um ato pessoal e histórico. A encarnação, portanto, não é mera aparência, mas a verdadeira união de duas naturezas em uma só pessoa, por isso João insiste em testemunhar sinais (termo que emprega para os milagres) que apontam para a glória invisível daquele que é o Verbo.
No plano doutrinário, a afirmação de João 1.14 fundamenta a regra de fé da igreja antiga: em Cristo há duas naturezas sem confusão, mudança, divisão ou separação (concílio de Calcedônia, 451 d.C.). A lógica teológica é esta: se o Verbo não tivesse assumido plenamente a carne, não poderia redimir a obra humana corrompida pelo pecado; mas se não fosse plenamente Deus, não teria o poder de conferir vida eterna. Assim, a encarnação torna-se pressuposto indispensável da expiação vicária e da união com Deus—“Pois, nele, habita corporalmente toda a plenitude da divindade” (Cl 2.9).
Para tanto, a revelação do Senhor Jesus como o Verbo encarnado nos convida a contemplar o mistério da Trindade comunicando‑se em linguagem humana, inaugurando uma nova criação. Ao meditar em João 1.14, o crente reconhece que a Palavra não permanece distante, mas tornou‑se carne a fim de que “todos recebam poder para se tornarem filhos de Deus” (Jo 1.12). Desse modo, o Verbo que se fez carne continua habitando em nós pelo Espírito Santo, capacitando‑nos a viver na graça e na verdade que só se encontram em Cristo.
Assim sendo, é importante destacar a dimensão cósmica do Verbo: João 1.3 afirma que “todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e, sem ele, nada do que foi feito se fez”. Esse papel criador do Logos coloca Jesus não apenas como participante da história humana, mas como a força dinâmica que sustenta e governa todo o universo. Na tradição patrística, essa verdade serviu para combater heresias como o gnosticismo (que negava a bondade da matéria) e o ebionismo (que via Jesus apenas como homem), pois ao reconhecer no Verbo a fonte da criação e, ao mesmo tempo, o agente da redenção, a Igreja primitiva afirmou que a criação, a queda e a restauração encontram‑se intrinsecamente ligadas à pessoa de Cristo.
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