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Uma nova Espanha que desperta a cobiça europeia

  • Foto do escritor: Prof. Ms. Josiel Medeiros
    Prof. Ms. Josiel Medeiros
  • 11 de fev. de 2025
  • 4 min de leitura

O cenário é de inverno rigoroso em Segóvia, na região central da Espanha, onde turistas de diferentes partes do mundo — da Europa, da Ásia e das Américas — se reúnem para admirar o antigo aqueduto romano e, claro, registrar selfies. No alto de suas arcadas históricas, fica evidente que o turismo voltou a pulsar intensamente no país.

“Cheguei a pensar, durante a crise de covid-19, que o turismo jamais voltaria ao patamar anterior”, conta Elena Mirón, guia local pronta para apresentar Segóvia a um grupo de visitantes. “Felizmente, eu estava enganada: 2023 e 2024 foram excelentes, e 2025 promete manter esse ritmo. É um alívio saber que posso continuar vivendo do que amo.”


Em 2024, a Espanha recebeu 94 milhões de turistas — seu maior recorde até hoje — e agora está na briga com a França, que teve 100 milhões de visitantes, pelo título de destino turístico número um no planeta. Esse forte avanço no setor ajuda a explicar por que a economia espanhola vem superando com folga as demais grandes potências europeias: o crescimento do PIB do país foi de 3,2% no ano passado, contrastando com a queda de 0,2% na Alemanha e as modestas altas de 1,1% na França, 0,5% na Itália e 0,9% no Reino Unido.


Não por acaso, a revista The Economist reconheceu a Espanha como a economia de melhor desempenho do mundo. E, para o ministro da Economia, Carlos Cuerpo, o segredo é um modelo que equilibra diferentes setores. “Temos uma base diversificada que garante crescimento sustentável”, explica ele, lembrando que, em 2024, a Espanha sozinha respondeu por 40% do crescimento total da zona do euro.


Embora o turismo seja destaque, Cuerpo salienta que os serviços financeiros, a inovação tecnológica e o investimento estrangeiro também contribuíram para que o país se reerguesse da queda de 11% sofrida durante a pandemia. “Estamos saindo da crise sem grandes feridas e modernizando nossa economia, o que eleva nosso potencial de crescimento”, afirma o ministro.


O processo de renovação se deve em parte aos fundos do programa europeu Next Generation EU, que oferece à Espanha até 163 bilhões de euros até 2026 — o maior montante dentro do bloco, empatado com a Itália. Os recursos estão sendo aplicados em trens de alta velocidade, áreas urbanas de baixas emissões, incentivos à indústria de carros elétricos e apoios a pequenos empreendimentos.


“Quase metade do nosso crescimento desde o fim da pandemia pode ser atribuída a investimentos públicos”, explica María Jesús Valdemoros, economista da IESE Business School. Enquanto isso, outras economias europeias esbarram em gargalos relacionados à indústria: custos elevados de energia, competição de mercados asiáticos, a pressão da transição verde e o protecionismo comercial.


Também na Espanha houve alta do custo de vida, agravada pela invasão russa à Ucrânia em 2022. A inflação atingiu assustadores 11% em meados daquele ano, sobretudo devido ao preço da energia, mas caiu para 2,8% no final de 2024. Subsídios para combustíveis, incentivos ao transporte público e aumentos sequenciais do salário mínimo ajudaram a conter a crise.


Outra iniciativa elogiada é a chamada “exceção ibérica”, que permite a Espanha e Portugal limitar o preço do gás usado na geração de eletricidade, diminuindo, assim, o impacto na conta de luz. Para Cuerpo, esses mecanismos foram essenciais para blindar a economia dos choques inflacionários que se seguiram ao conflito na Ucrânia.


Além disso, o país dispõe da segunda maior estrutura de energia renovável da União Europeia, o que atrai investimentos industriais, especialmente no setor automotivo. Wayne Griffiths, executivo britânico à frente da Seat e da Cupra, acredita que a Espanha, mesmo em descompasso com outros mercados na produção de veículos elétricos, possui grande capacidade de crescimento. “Faz sentido criar carros limpos onde a matriz energética também seja sustentável”, diz.


O desemprego continua sendo um desafio histórico, mas os números avançaram positivamente: a taxa caiu para 10,6% no último trimestre de 2024, o menor índice desde 2008, e o número total de ocupados chegou a 22 milhões — uma marca inédita. Analistas apontam a reforma trabalhista como uma das responsáveis, ao desestimular o uso abusivo de contratos temporários e impulsionar o emprego permanente.


Uma população em envelhecimento rápido requer uma força de trabalho renovada, e a chegada de imigrantes tem sido vista por muitos como fundamental para suprir essa demanda, apesar dos debates políticos acalorados. O primeiro-ministro Pedro Sánchez é enfático ao valorizar a mão de obra estrangeira, classificando sua participação como “primordial” para a saúde econômica do país.


A Comissão Europeia prevê que a Espanha manterá a liderança no crescimento entre as grandes economias do bloco neste ano, ainda que permaneçam problemas pela frente. Entre eles, o peso excessivo do turismo, que começa a incomodar moradores em algumas regiões, a enorme dívida pública, acima do PIB, e a crise habitacional, que dificulta o acesso à moradia para boa parte da população.


Para Valdemoros, essa combinação de endividamento alto e escassez de moradias precisa de soluções urgentes, seja para atender às regras fiscais da UE, seja para evitar desequilíbrios futuros. Com um cenário político polarizado e um governo minoritário, Pedro Sánchez encontra dificuldades para aprovar reformas mais profundas. Ainda assim, a Espanha comemora o fato de, por ora, encabeçar o pelotão do crescimento econômico na Europa.

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